Como o Sangue dos Anjos

(…)A prince can mak a belted knight,
A marquis, duke, an’ a’ that;
But an honest man’s abon his might,
Gude faith, he maunna fa’ that!
For a’ that, an’ a’ that,
Their dignities an’ a’ that;
The pith o’ sense, an’ pride o’ worth,
Are higher rank than a’ that. (…)

Um príncipe pode criar um cavalheiro,
um marquês, duque, e tudo o mais!
Mas um homem honesto está acima de sua criação
Em boa fé, isso ele não tem como negar.
Por tudo isso e tudo o mais
Por sua dignidade e tudo o mais
O cerne de senso e orgulho de seu valor
São patente maior que tudo o mais.
— Robert Burns, “A Man’s a Man for A’ That”


Oi, Anna! Tudo bem? Segue aqui a receita que você pediu. Você só faz a gentileza de revisar antes, por favor —vai que eu escrevi um palavrão sem querer (de novo…)

Porridge da mãe do Gary (vulgo Escocês Radioativo): 1 xícara e meia de aveia, três xícaras de água (ou uma mistura de água ou leite, ou só leite), uma pitada de sal. Ferva o líquido, diminua o fogo e acrescente a aveia aos poucos para não empelotar. Acrescente o sal e deixe cozinhar por 20-30 minutos, misturando de vez em quando para a mistura não queimar nem grudar no fundo da panela (sempre no sentido horário, ou então o diabo amaldiçoa quem está cozinhando. Não fui eu que fiz as regras…). Quando ficar da consistência desejada, coloque um pouco de água ou leite frio por cima e serve.

Minha mãe come com mel, e tem quem prefira adicionar geleia ou nozes ou frutas, mas se é para ter a experiência completa, vai puro mesmo com uma caneca de chá preto acompanhando. Garanto que não se fica com fome! Avisa para os seus leitores que a aveia tem que ser daquela grossa — não pode ser da instantânea, senão você acaba com cola de pregar papel de parede no lugar do porridge. Pergunta como eu sei…

Ah! A gente usa por aqui uma “varinha mágica” para mexer o porridge — tem o nome muito engraçado de “spurtle”. Na falta disso, qualquer colher de madeira resolve… Não é a mesma coisa, mas resolve!

PS: Escuta, só de curiosidade… Quando é que meu bisavô aparece na história, hein?

II. Cinco da manhã em Edimburgo

Mick era sempre o primeiro a acordar na casa, fosse inverno ou verão. No escuro do quarto com vistas para a rua, três horas antes do nascer do sol e enrolado nas cobertas de tal jeito que parecia-se um lagarto recusando-se a passar pela inevitável metamorfose, ele conversava com Deus.

Ele nunca fora homem de Pais-Nossos e Ave-Marias, se atrapalhava todo com as preces que a mãe tanto fazia questão que ele decorasse. Quando ele precisava falar com o Criador em particular, ele preferia que fosse em seus próprios termos. O Gerente Lá em Cima certamente compreendia a situação. Afinal, Ele tinha criado os marinheiros, então devia saber como funcionava o cérebro deles…

Meu bom Senhor, já que estou acordado, vamos a isso, ele começou, respirando fundo e esticando os dedos dos pés. O ar estava carregado do cheiro de lençol encardido (hoje era o dia da lavadeira vir buscar as roupas de cama da casa), de poeira no tapete (era bom dar uma surra naquelas tapeçarias antes do Natal) e de mar, trazido pelo vento que se esgueirava pelas frestas da cortina (ou era sua imaginação? Ele tinha sonhado com Cádiz de novo, afinal). Obrigado pelo teto, pela comida e pela saúde da molecada toda — falando nisso, Senhor, se for possível, dá para a gente conversar a respeito de sapatos? Esse povo gasta botina que é uma coisa, de onde vou tirar dinheiro pra comprar sapato pra esses três? Natal tá aí, o Ian tá precisando de sapatos de novo e as botas do Seamus não servem nele ainda. Como é que eu vou fazer?

Continuando… Desculpa pela interrupção, Senhor… Tem uma penca de coisa pra resolver hoje lá na administração portuária… Senhor, eu sei que é pra eu ficar aqui cuidando dos meninos e tal… Bah, “meninos”, o Seamus daqui a pouco tá casando, do jeito que ele é precoce. Tem quase dezessete mas acha que tem o dobro, eu sei, daqui a pouco tá ajeitado, mas ainda tem o Ian e a Verity pra cuidar… Mas eu sinto tanta falta de navio que parece até coceira! Puxa vida, manter um homem do mar preso atrás duma mesa, que mal fiz eu ao mundo?

Continuando… Preciso ver essa história da roupa da Verity, também… Que diacho que eu entendo de vestido de menina, caramba? Que raio que ela precisa dum vestido novo pro raio do evento na igreja, não podia usar o que ela já tem? Ainda serve, não serve? Caramba, do que é que eu entendo, também? Outro dia ela era um bebê e já tá com treze anos já — treze indo pra catorze. Daqui a pouco vou ter que comprar uma baioneta pra espantar pretendente da porta de casa, só me faltava mais isso…

Continuando! Enfim, Senhor, olhe por nós aqui embaixo. E pelo pessoal nos navios, que dezembro não é mês fácil, o mar não anda ajudando muito. Olhe pela alma dos meus pais – diz pra eles que tá tudo bem aqui. A molecada tá bem, eu tô bem, todo mundo almoçando e jantando — exceto quando o Ian teima que não quer comer, mas isso é outra coisa. Tem comida no prato, tem cobertor na cama. O Seamus tá trabalhando, a Verity e o Ian ‘tão na escola, tá tudo dentro dos conformes. Eu tô me esforçando. E, por favor, olhe pela Ximena também, onde quer que ela esteja. Que ela seja feliz. Amém.

E com isso ele saiu da cama em um só golpe, jogando a coberta longe, os pés pesados fazendo o assoalho velho ranger.

Devidamente barbeado e vestido (por mais difícil que fosse lidar com água fria e luz pouca para o trabalho), ele descia em silêncio para começar as tarefas do dia: tirar o feltro que servia de abafador para o relógio carrilhão da sala, recolher as garrafas de leite da porta (o líquido congelado por causa do frio, a gordura ameaçando explodir as tampas) e, por fim, alimentar as brasas do fogão com mais carvão-coque e começar a aquecer a água para o porridge do pessoal. Aquilo deveria ser tarefa da senhora Leigh, mas ela já não tinha a mesma agilidade de antes, e Mick fingia “ajudar” a mulher que os pais dele tinham abrigado antes de ele nascer e que tinha criado a ele e aos irmãos.

Às seis em ponto, o sino do relógio da sala começava a soar e os ruídos no andar de cima recomeçavam: portas batendo, água caindo nas bacias, resmungos e soluços enquanto o chão rangia. Primeiro descia Seamus, tomando cuidado para não bater a cabeça no alto da escada: ele era dos quatro McGuires o mais alto, muito magro e muito desajeitado em suas roupas de trabalho, as calças herdadas de Mick e a camisa comprada com seu primeiro salário. Verity sempre descia logo em seguida, arrastando os pés — como a mãe, ela odiava acordar cedo. Ian aparecia por último, silencioso como rato de igreja, sempre olhando para baixo e seguindo o caminho da irmã.

— ‘Dia, Mick… — Seamus sentou-se à mesa, apoiando os livros que tinha que devolver na biblioteca em uma cadeira a seu lado.

— Bom dia — Verity disse, sentando-se ao lado do irmão. — Seamus, o que é isso no seu rosto?

— Isso chama-se ‘eu não sei me barbear ainda.’— Mick respondeu, passando as tigelas de mingau para os irmãos mais novos — Tira esses livros daí, Seamus, vai sujar tudo. Ian! Vem comer duma vez!

— Sem fome — o menino sentou-se, encolhido em seu canto da mesa.

— Jesus num bote, mas que bicho te mordeu? Foi pesadelo de novo? Todo mundo, comendo! Que mingau frio só presta pra colar papel de parede. Vem aqui, Ian, deixa eu ver uma coisa… — o rapaz puxou o irmão mais novo pelo braço, pondo a mão imensa sobre a testa do garoto.

E retirando logo em seguida.

— Ele tá com febre? — Verity disse.

— Pelando! — Mick pegou o menino no colo com a facilidade de quem passara a vida toda carregando pesos bem mais incômodos — Lá vamos nós de novo… Senhora Leigh! Vamos precisar de ajuda!

— Já vai, seu Michael, já vai… — a velha Arabella Leigh, imensa e rotunda, já seguia atrás de plantas para ajudar a baixar a febre do menino.

— Não é melhor chamar um médico? — Verity perguntou.

— Com que dinheiro? Pode me dizer? — Mick já subia as escadas com Ian no colo, rezando para que o menino não passasse mal no caminho até a cama. — Cristo, será que eu vou ter paz em algum momento? Seamus! Você trate de acompanhar sua irmã até a escola e avise lá no escritório que eu apareço mais tarde. Ouviu direitinho?

Seamus agitou a cabeça, tremendo da cabeça aos pés. James Michael McGuire, dos quatro irmãos o mais ruivo e o mais velho, era o capitão daquela casa — por isso, quando ele dava ordens, nem mesmo o demônio se atreveria a desdizê-lo.

Mas Verity, embora tivesse medo do irmão, também tinha um tanto de teimosia no sangue — e assim que os dois saíram de casa, ela o arrastou pela manga do paletó na direção contrária a da escola. E Seamus a seguiu, mesmo sabendo que não deveria.

Às seis e meia da manhã, Alexander Brown estava voltando para sua casa após passar a noite no hospital. Ele adorava o silêncio das ladeiras àquela hora, como se ele fosse o único ser vivo em toda a parte baixa de Edimburgo, aquela terra coalhada de cortiços e estranhos de todo tipo. Os leiteiros e os verdureiros mal tinham começado suas rondas, as donas de casa estavam para despertar, e a névoa cobria o topo dos prédios antes do amanhecer que ameaçava tingir de azul os céus eternamente nublados da capital. Quem seria capaz de se queixar de um cenário daqueles?

Silêncio, afinal, era artigo raro para um homem acostumado com multidões e ruídos de toda sorte desde o dia em que nascera: primeiro a choradeira dos quartos comunais no orfanato e dos corredores da casa para onde foi enviado; depois o ranger de dentes e os lamentos dos hospitais de campanha, e por fim o caos da capital, com seus trens, bondes e aglomerações. Quando chegava em casa, exausto mas contente por ter sobrevivido, agradecia ao destino por morar sozinho e não precisar dividir nada com mais ninguém.

A desvantagem da solidão era encontrar uma casa gelada quando abria a porta. A água tinha congelado dentro da jarra de cerâmica no quarto, a lareira estava vazia, tudo parecia ainda mais soturno do que já era. Ele morava naquele apartamento alugado em Lyon’s Close há três anos, e ainda sentia-se chegando na residência de um estranho, não em seu lar. O que fazia de três cômodos um lar? Fotos de parentes? Ele não tinha nenhuma. Suvenires de viagens? Ele só tinha lembranças de campos de batalha. Um móvel ou um objeto favorito? Ele sempre alugava apartamentos já mobiliados e só trazia as próprias roupas para dentro do local.

Antes, uma dose ou duas de uísque servia para contrabalançar o inverno eterno que pairava no ambiente e dentro dele, mas aquilo não era mais uma opção. Não se ele queria permanecer um homem livre – ou pelo menos um homem vivo, o que já era suficiente, ou pelo menos era o que ele se dizia toda vez que se pegava fraquejando em sua decisão.

Não havia mais nada alcoólico na casa, mas havia um objeto que o incomodava tanto quanto a falta que sentia de uísque — e lá estava o desgraçado, pendurado na parede de novo: o crucifixo de madeira escura e cerâmica suja, encarando Alexander. Aquela briga de gato e rato entre a faxineira e o locatário ia completar seis meses, e ele não sabia porque não tinha atirado aquele troço dentro da lareira ainda.

Talvez hoje fosse um bom dia para isso.

Não teve tempo sequer acender o fogo: alguém estava batendo à porta da frente.

Ele não se moveu, uma mão contra o crucifixo. As luzes estavam apagadas, tudo silencioso — quem seria capaz de dizer que havia alguém em casa? Não tinha placa na porta anunciando que ali morava um médico, como tinham lhe achado? Porque uma coisa era certa, ninguém viria lhe procurar para outra coisa se não fosse para emergências.

Ele estava cansado. Tinha passado a noite toda em pé, andando como um condenado pelos corredores do hospital. Que diabo, existiam outros médicos na cidade — por que estavam batendo na porta da casa dele?

Ele largou o crucifixo na mesa e moveu-se para abrir a porta. Duas crianças estavam paradas diante da soleira, enroladas em casacos surrados e botinas que já tinham visto dias melhores, ambos com olhos arregalados de medo e preocupação. Dois ruivos, uma menina em tranças que desciam pelos ombros e um garoto de uns dezesseis anos com mais espinhas do que uma roseira e um belo corte no queixo. Estava aprendendo a se barbear, pelo visto.

— O senhor é o médico? — A menina ergueu a voz, fingindo ter mais coragem do que aparentava. Alexander sabia que tinha assustado os dois. Quem não se assustaria com um homem de cabelo preto e mais olheiras do que rosto, barba por fazer e olhos injetados de tanto cansaço? Ele não se parecia com um médico àquela altura da manhã, mal e mal se parecia com um homem.

— Até segunda ordem… Qual a emergência?

— Nosso irmão tá passando muito mal. Doutor Macmillian disse que o senhor poderia ajudar.

— Qual a idade do paciente?

— Nove anos, doutor — O rapaz mais velho respondeu. — Ele tá queimando de febre, não consegue engolir a comida direito…

— A gente tem como pagar a consulta — de novo a coragem fingida da menina cortando a conversa. A julgar pelo olhar que o irmão lhe dirigiu, estava claro porque Macmillian jogou o caso para ele. Podiam pagar, mas não podiam pagar o suficiente para tirar aquele rato debaixo das cobertas… Então o caso sobrou para ele.

Alexander fez uma lista mental de possibilidades enquanto voltava para dentro do apartamento atrás de sua maleta e seu casaco. Otite média supurada? Pneumonia? Apendicite? Que não fosse nada mais complicado do que isso, porque ele não queria perder tempo com o caso. Não era culpa do pobre do paciente, era a ideia de precisar lidar com os pais da criança que lhe dava nos nervos. Imaginava que a mãe dos dois ruivos à porta estivesse em casa, sentada ao lado da cama do caçula febril, tentando se fazer forte para que o paciente não ficasse ainda mais assustado com seu estado. Onde estaria o pai daquelas criaturas? Em algum barco? Largado na sarjeta? Enterrado em algum cemitério militar na França ou na Bélgica?

Se você descesse à Terra hoje, camarada, onde é que seu pai o largaria?, ele pensou enquanto pegava seu chapéu e olhava de novo para o crucifixo abandonado. Com um longo suspiro, e amaldiçoando o nome de seu colega e de todas as gerações de médicos na cidade de Edimburgo, ele enfiou o chapéu na cabeça e foi ao encontro de seu novo paciente. Ele poderia dormir quando morresse…

No próximo episódio: Quando um médico e um ex-marinheiro se encontram, será que eles se reconhecem? Vocês descobrem em breve…

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E vamos fofocar sobre a história? A votação sobre onde o grupo de bate-papo deve ser aberto ainda segue. Manda um oi com sua sugestão (está empatado entre Telegram e Whatsapp…)

Créditos das imagens deste capítulo:

Calton Hill, Edimburgo: Pixabay via Pexels

Banner: “Edinburgh & the north lock with the bank on which the new town is built”, de Paul Sandby (1750), British Library.

Mapa de Leith, 1897: EdinPhoto

Ilustração do cardo: Rawpixel

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