Enfim. Esse troço todo ainda me incomoda um bocado. Já faz um ano dessa história e sabe que ainda tem dia que fico esperando o Fortunato aparecer na estrada? Especialmente agora que é época de colheita. Ele sempre vinha para as colônias nessa época — pegava carona em um cargueiro ou em alguma nave particular e aparecia aqui em Bertha Lutz com aquela mochila ridícula, perguntando se tinha alguma fazenda precisando de mão de obra para a temporada.
O Fortunato era parte da vida dessa nossa lua agrícola, como os ventos lá fora do domo, sabe? Cresci vendo-o trabalhar na plantação da minha família, ou então nas plantações dos nossos amigos pela estrada afora. Como dizia meu pai, era batata – assim que os tomateiros começavam a florir, ele me dizia: daqui a pouco, chegam as frutas e os trecheiros. Daqui a pouco, chega o Fortunato por aqui, ele vem nos ajudar.
Fortunato Poeira, o protagonista ausente deste romance publicado pela Editora Aboio, é um “trecheiro” – um homem que vive entre a Terra e a comunidade Bertha Lutz, em uma lua agrícola, fazendo trabalhos braçais para sobreviver. Quando ele morre, seu amigo Antônio, fazendeiro em Bertha Lutz, encarrega-se de preparar seu funeral. O problema é que a burocracia não permite que a cremação aconteça antes que os familiares do falecido sejam avisados. E é quando Antônio, o narrador, e seus colegas se põem a buscar esses familiares que o verdadeiro drama da vida de Fortunato se desenha – e começa uma árida disputa não só pelo funeral, mas pela memória e narrativa da vida do trecheiro.
Mais do que um livro sobre um futuro imaginário, Fortunato Poeira é um romance sobre um futuro possível que carrega as angústias e os anseios do presente. E, acima de tudo, uma boa história contada em um texto ágil, esperto e bem-humorado.
“Misturando o pessoal, o social e o político, Martino tece uma trama envolvente, pois domina seu ofício e sabe quais tipos de emoção quer gerar. Lendo este livro, você orbitará uma narrativa fluída e com personagens bem construídos. E estará, então, entre as pessoas com histórias para contar sobre quem foi Fortunato Poeira.”
– Waldson souza, autor de “23 minutos” (Harper Collins)
O que eu mais gosto nos livros da Anna Martino é a atenção às melancolias da vida e a imaginação de uma ficção científica que não se parece com nenhuma outra. Seus livros são sempre leituras originais e muito prazerosas. É como se o próprio Belchior tivesse decidido escrever ficção científica.
– Lucas Mota, autor de “olhos de Pixel”, vencedor do prêmio jabuti de romance de entretenimento (2022)