Três questões quando você escreve sobre viagens no tempo

Questão número um: não é como você vai, é como você volta.

Porque ir é fácil: você, teoricamente, parte do seu laboratório na direção do local escolhido. E para voltar? Não existe uma base, não existe tecnologia parecida para, por exemplo, recarregar um telefone celular — ou, no caso destas histórias, um comunicador que utiliza um misto de GPS e teoria das cordas para conseguir quebrar a barreira do tempo.

E, no caso específico da série do Tempo Pretérito, onde você esconde um vagão de metrô com 21,75 metros de comprimento, 3,10 metros de largura e 3,5 metros de altura? (as informações vieram daqui). Não é nem um pouco discreto — é bem essa a ideia. Em Saudades do Brasil, parte do meu problema tem sido encontrar um local que possa ocultar esse veículo por alguns dias… Afinal, até daria para arranjar uma desculpa em 1980 (Senhor Tempo Bom), mas nesse livro novo, voltamos para os anos 1940… E agora?

Questão número dois: não é o desconhecido que causa problemas, é o que você já sabe.

River Song, personagem da série Doctor Who, é quem sabia disso como ninguém: spoilers, sweetie. O problema de uma viagem ao passado não é encontrar algo desconhecido, é não estragar o que vai acontecer no futuro. Pessoas que vão morrer em breve, ou vão passar por problemas, ou serão lançadas ao estrelato em questão de dias: como lidar com elas sem deixar transparecer que você sabe de tudo?

A base de Saudades do Brasil é um evento histórico: o primeiro show de Carmen Miranda no Brasil após triunfante temporada nos Estados Unidos. Se você aterrisasse no Cassino da Urca nesse dia, tendo lido previamente sobre a cantora e sobre o Brasil dos anos 1940 e a Segunda Guerra Mundial, como você se sentiria?

Ou, num exercício que ando me propondo (e que espero que meu editor na Plutão não se importe se eu oferecer): se o futuro de Irene, Ruben, Galileu e Estevão aparecer para eles, direto de 2020 — dez anos depois das aventuras de Senhor Tempo Bom, nove anos depois das aventuras de Saudades do Brasil… O que essa pessoa diria para eles sobre o tempo de hoje?

(vocês, eu não sei: mas eu já estou com pena dos meus personagens em 2020…)

Questão número três: não é sobre quem vai, é sobre quem fica.

A base de toda a série do Tempo Pretérito é a abertura do livro O Mensageiro, de L.P. Hartley: O passado é um país estrangeiro, as pessoas fazem as coisas de maneira diferente por lá. Uma viagem no tempo nunca é sobre o viajante, mas as pessoas que ele encontra pelo caminho. E é este meu desafio para essa semana: deixar as pessoas que meus personagens encontram interessantes ao extremo, para que seja difícil escolher entre ficar ou partir.

E é aí que entra o personagem que foi apelidado, meio maldosamente, de Senhor Leite de Magnésia (existe um motivo para esse nome. Não, eu não vou contar agora). Ele não estava no planejamento anterior, não era uma pessoa que eu esperava encontrar nesse manuscrito e, decididamente, não é pessoa da qual os personagens do livro vão conseguir se esquecer tão facilmente. E, não sei vocês, mas esse tipo de criatura desabada do céu é muito divertida de criar. Talvez porque não tenha condições pré-existentes, não veio com uma missão dentro da trama: ela simplesmente existe, e está bem assim.

Minha missão essa semana é dar para o Senhor Leite de Magnésia um futuro. Eis um processo complicado, considerando tudo o que está acontecendo no mundo agora, agosto de 2020. Escrever sobre o passado nunca é realmente sobre o passado, e talvez o fato de viver em um momento histórico está comprometendo minha capacidade de me afastar e analisar a trama de maneira decente…!

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